Jacó do Bandolim era o
trovão. Onde ele estivesse, o espaço era totalmente
ocupado pela sua voz ou pelo seu olhar ou pela sua música.
Seu bandolim encantado inundava
nossas vidas através dos saraus na generosa casa de Jacarepaguá.
Tia Amélia, Pixinguinha, Paulinho da Viola, Clementina, Canhoto
da Paraíba, Dino, César Faria, Jonas, Oscar Cáceres,
todos e tudo devidamente documentados pelo anfitrião com
gravações, partituras e, mais esporadicamente, fotos.
Hermínio Bello de Carvalho
fazia às vezes de mestre-de-cerimônias. Amigo fiel
de Jacó levou-me a presenciar situações inesquecíveis.
Numa delas, fomos com Jacó
à casa de um solícito e idoso fã niteroiense:
Nhônhô. Encontramos Jacó nas barcas e, como eu
trazia o material completo do Concerto de Castelnuovo-Tedesco para
violão e orquestra, ele divertiu-se toda a travessia tomando
conhecimento daquela obra.
Mais tarde, em Niterói,
já no táxi, a caminho da casa do famoso Nhônhô,
percebo Jacó assobiando trechos dom Concerto que lera há
pouco.
– Jacó a melodia está errada. Não é
bem assim...
Jacó, com sua tonitruante
gargalhada me adverte:
– Oh, Turíbio, não é a melodia. Estou
assobiando a parte do violoncelo!
Todos estupefatos dentro do táxi. Eu, mais que todos.
– Você decorou o Concerto?
– O Concerto todo não deu, mas do primeiro movimento,
todas as linhas condutoras.
E saiu assobiando o primeiro-violino,
a clarineta, a flauta etc. até a casa do Nhônhô,
que ansioso nos aguardava na porta do jardim. Jacó desce
do carro e sue vozeirão ordena:
– Paga o táxi, velho bandido!
A professora Ermelinda me olha espantada. Eu afirmo:
– Ermelinda, Jonas do Cavaquinho sempre disse que Jacó
aprendeu música em um dia!
– Mas isso é impossível, é inacreditável.
– Veja bem, Jacó aprendeu a escrever e ler música
em um dia justamente por já saber tudo da música anteriormente.
– Mas...como?
– Eu não sei. Jonas me contou que lê foi bem
cedinho para a casa de um spalla (primeiro-violino) amigo dele.
Foi com a família toda. De manhã já sabia solfejar
em qualquer clave. De tarde, aprendeu toda a notação
da harmonia.
Incrédula, Ermelinda Azevedo
Paz armou-se de disposição e descobriu a veracidade
da história do Jonas. Todos seremos gratos à sua tenacidade
de pesquisadora, e à sua biografia de Jacó do Bandolim.
Detalhes: isso aconteceu entre
1948 e 1949, e o professor foi Dalton Vogeler.
Na casa do Nhônhô,
fez-se muita música até cinco horas da manhã.
Todos tocaram e muito. Eu também.
Cansado Jacó anuncia a
retirada:
– Muito bem, é hora de irmos embora.
E Nhônhô, no taco:
– Mas por quê, Jacó? Alguma contrariedade?
Pronto. Jacó soltou o trovão
em cima do velho. Uma cena de opereta bufa em que cada um já
sabe o papel que lhe toca e Nhônhô nada mais fazia que
representar o seu.
Resultado: Jacó impôs-lhe
uma sentença. Passaria um ano sem tocar na casa do velhinho
e sem falar com ele. O pobre só faltava chorar. No táxi,
estávamos às gargalhadas enquanto ele já deveria
estar tramando a reconquista do adorado Jacó.
Em geral, já que as rusgas
entre ambos eram constantes, a pacificação era feita
de maneira bem singela. Nhônhô passava uma tarde inteira
na calçada escaldante do centro do Rio até encontrar
“por acaso” diante da 8ª Vara Criminal com Jacó.
Oferecia-lhe “por coincidência” aquele bolo maravilhoso
da patroa e a rusga se encerrava com o agendamento de mais uma seresta.
Minha última lembrança
de Jacó foi um gesto de generosidade dele. Agosto de 1966.
O trovão me telefona. Queria fazer um sarau comemorando minha
vitória no concurso em Paris. Como eu ia para o Nordeste,
deixamos para marcar uma data na volta.
Aos cinqüenta e quatro anos,
Jacó deixou-nos precipitadamente. Os inúmeros maços
de Mistura Fina Especial Extra, fumados até durante suas
duas parcas horas de sono, cobraram o seu altíssimo preço.
Agora Jacó anda por aí,
nos bandolins, cavaquinhos, violões e composições
das novas gerações. Sua presença passou a ser
eterna na música brasileira. Carisma e inspiração.