Não se pode dizer que era
uma pessoa que se pudesse rotular de expansiva. Se não represasse
tanto as emoções, talvez até o coração
não o traísse da maneira que o traiu, quando voltava
da casa de Pixinguinha — onde foi pedir licença e bênção
para morrer.
Lembro que tivemos acirrada discussão
antes do “show” do João Caetano, aquele que dirigi
ao lado de Elizeth, “Época de Ouro” e o Zimbo
Trio — recital do qual resultaram três LPs que são
o orgulho de minha vida. A gente se comunicava por recados um tanto
sobre malcriados e tensos — era, afinal, o dia da estréia.
Eu tinha chegado cedo ao teatro, feito as marcações
no palco, afinado os refletores, escrito toda a luz do espetáculo.
Quando Jacob viu todo o meu cuidado, se desarmou. Toda hora vinha
me paparicar (“...você está nervoso?”,
“...não pensei que fosses tão cuidadoso assim”,
etc.). Fizemos um ensaio na marcação, entradas —
aquelas coisas. Roteiros espalhados pelas estantes, pelas coxias.
Elizeth tensíssima.
Eu me lembro que quando o concerto
chegou ao final, o público uivava. Foi uma coisa muito emocionante,
eu atrás do palco me senti agarrado pelo Sérgio (“entra
no palco, papai está chamando”) — e eu ouvia
o vozeirão de Jacob me chamando para receber junto deles
os aplausos, a verdadeira ovação que o público,
de pé, tributava a ele, a Elizeth, ao pessoal do Zimbo e
do “Época de Ouro”.
Me lembro de uma vez em que estava
em casa com meu parceiro Maurício Tapajós, compondo.
Ocorreu-nos colocar um disco de Jacob na vitrola, e sei lá
por quê, parece que naquele dia (efeito do uísque?
não creio) Jacob tocava diferente. Aí fiz um bilhete
bem ordinário ao Jacob:
“Gostar de homem é
coisa que não se deve confessar publicamente. Mas estou aqui
para confessar essa anormalidade e meu profundo amor por você,
Tom Jobim, Pixinguinha e Vinícius de Moraes. Por vocês
eu ia pra zona fazer coisa feia, e ficava o dia inteiro rodando
bolsinha, agüentando homem na cama até dizer chega.
Aí eu voltava pra casa. Para Pixinguinha eu trazia bolacha-maria
e ia direto pro quarto botar soutien francês e calcinha rendada.
"Tonzinho" querendo eu ia fritar ovos, tirar gelo bem
gelado, acalentar sua vagotonia, e aí então eu ia
satisfazer os desejos de Vinícius. Deixava-o assim como sempre
foi: aquele mar que entra e sai pelos cabelos dele, aquele tufão
de flores que salpica por onde anda. Para você eu pedia licença
à Adília e ia tratar todo cheio de dengos: botava
remedinho, aturava seus destemperos, e pedia para você tocar
o "Vou vivendo”, razão e motivo desta declaração
impudica, eu disse impudica”.
Peguei meu carro, buzinei na porta
da casa, joguei o bilhete na varanda e voltei pra casa. Lembro agora:
ele andava fazendo um museu de roupas, e já tinha uma ceroula
do Pixinga, uma cueca não sei de quem — porque também
Jacob não era fácil! E eu, de pura safadeza, havia
roubado um par de meias dele, pra também fazer o meu Museu...
Bem, no dia seguinte ao da minha
estripulia, o Jacob me telefona pra passar um “carão”.
Mas quem disse que ele se agüentava sério por muito
tempo? Rimos muito, como dois bons moleques que éramos.
Um dia fui “saído”
da Rádio MEC. Eu tinha voltado de Paris, onde fora o primeiro
brasileiro a integrar um júri de composição
promovido pelo O.R.T.F. A coisa fora mais grave porque eu havia
ido em missão oficial, inclusive para permutar material com
a Rádio. Mais grave do que isso, porém, foi o caso
dos inúmeros programas que Jacob gravou para o MEC, e que
por motivo de economia foram mandados apagar pela Diretoria da Rádio.
Isso ficou doendo nele até dizer chega. Já tínhamos,
nessa época, problemas com a chamada “memória
nacional”...
Não, o bilhete que recebi
foi um pouco antes disso. O Prof. Mozart de Araújo (meu Mário
de Andrade dos dias de hoje) me havia levado pra Rádio para
eu fazer uma série de programas sobre literatura do violão.
Quando a série acabou, Jacob (que gravava todos os programas
e os arquivava religiosamente) me mandou um bilhete comovedor:
De mão beijada, aí
vai humilde lembrança do teu amigo, mais modesta que o par
de meias que me furtaste e a que deste tanto valor...
Terminou — na Rádio Ministério — o programa
“Violão de ontem e de hoje” e, no meu conceito,
a maior e mais perfeita promoção do violão
erudito que tive ensejo de conhecer. Com isso ficaram suspensos,
sine die, deliciosos momentos meus em que a inteligência se
apurou e os sentimentos se sublimaram. Ouvindo-te, aprendi muito.
Mas como ensinar-te algo sobre o violão? Difícil.
Daí a iniciativa de
levantar o repertório de João Pernambuco, tarefa que
me consumiu algum tempo em buscas por vezes infrutíferas.Claro
está que não tenho tudo de João, mas as informações
que aí seguem são verdadeiras e, quando não,
a omissão ou dúvida estão patentes.Espero que
te seja útil como útil tens sido ao velho que te abraça.
JACOB.
Foram também, inesquecíveis,
para mim, os saraus de Jacob, um dos quais passei para um disco.
Tem uma versão de 9 minutos do “Noites Cariocas”
absolutamente antológica. Foi lá que conheci Paulinho
da Viola, e levei Oscar Cáceres, Maria Luísa Anido,
Turíbio Santos, Clementina de Jesus — tanta gente!
Foi lá que ouvi Dorenski. Noite incrível.
Costumo dizer que Pixinguinha
é minha música, e que Jacob é meu músico.
Não mudei de opinião até agora.